
O DIA “D”
Hoje é o quarto dia após 3 dias na escuridão, mesmo sentindo a sensação de insegurança pelo que ainda estaria por vir, arrisquei olhar janela afora, e surpreendentemente o que vi deixou-me ainda mais confusa do que possam imaginar.
Peço-lhes permissão para compartilhar com todos vocês esse diário de bordo de uma caminhante/sobrevivente do Dia “D”, caso essas anotações cheguem até vocês, significa que o PLANETA AZUL ainda se encontra em atividade.
Na janela do quarto ousei espiar o que poderia estar ocorrendo, pois nos últimos 3 dias não tive coragem de sair à rua, os dias foram longos e intermináveis, e mesmo agora, ao escrever, somente o faço por que tenho a esperança que isto possa um dia ser lido por alguém, se restar algum de nós para contar a História, pois temo ser a do Fim de nosso amado Planeta Azul.
A angústia toma meu ser desde as últimas 72 horas, quando fomos abatidos pelo rompimento do fornecimento de energia elétrica, bem como há 48 horas, estamos sem água, pois o reservatório do condomínio secou nas primeiras 30 horas.
Alguma sorte ainda se abatia sobre mim, pois havia um galão de 10 litros de água potável, e, calculei que tomando cerca de 500 ml por dia, eu poderia me manter hidratada por longos 20 dias, e caso a situação permanecesse, confesso que nesse cálculo, não contei com a fraternidade que poderia bater à porta com um pedido de algum vizinho de família populosa, que viesse pedir por um de seus filhos que, desesperadamente com febre, solicitasse por um mísero copo d’água.
O egoísmo nunca é programado, resulta da rotina solitária, pois nunca pensamos em armazenar para o próximo, aliás, o próximo sempre se encontrava distante na realidade passada, e mesmo assim, sentia-me mais integrada do que agora, o silêncio que reinava em meu apartamento, assustava-me e, ao mesmo tempo, forçava-me a buscar respostas nas calçadas que circundam o prédio onde ainda resido.
Passados três dias, 1500 ml de água goela abaixo, sem tomar banho sequer, restringia-me apenas a umedecer as partes íntimas, afinal, é bom não contar com o breve o restabelecimento do fornecimento de água.
A reserva de alimento também já estava escassa, contamos, ainda, com gás que provém do gasoduto externo, e, por ora, aproveito os alimentos que dependem de cozimento para o seu preparo, reservando para momentos mais críticos, os que não necessitam dessa providência.
Finalmente tomo a decisão de descer escada abaixo, afinal resido no 19º andar, e lembrando que o retorno será bem mais sofrível, penso que preciso ter conhecimento do que esta efetivamente a ocorrer, pois desde o início da escuridão, os meios de comunicação também foram rompidos. Estamos sem qualquer noção do que exatamente nos ocorre.
Vencidos os 285 degraus, 15 para cada andar, até o térreo, finalmente adentrei ao átrio da recepção; e, espantada, percebi que nenhum funcionário fazia a vigilância da portaria, tudo escancaradamente aberto, convidava qualquer transeunte a conhecer as dependências internas do condomínio, e isso, causou-me séria preocupação, ao mesmo tempo, alivia-me a lembrança de que nem todos teriam fôlego para subirem até onde eu residia para pedir algo, e nesse pensamento, mais uma vez egoísta, fui avançando rumo à calçada...
Suspiro e penso se realmente encontrarão esses escritos, se abaixo de algum escombro, ou perdido nos pertences de algum transeunte à míngua em alguma calçada, o que me importa é registrar, preciso fazer isso com fidelidade, compartilhar; verbo esse que deixei de praticar na minha existência tridimensional que ora agoniza.
O que vi tentarei descrever com certa angústia e nó na garganta, pois nem sei se terminarei essa narrativa.
Primeiro, gostaria de descrever o que costumava ver quando saia à calçada do condomínio, pois resido em avenida de grande circulação, digamos a segunda mais movimentada da maior Capital de um país chamado Brasil...
Bancas de jornal à esquerda e muitos estacionamentos de carros, locadoras de veículos, pois notava-se que viver pressupunha TER alguma forma de locomoção, indicando se tratar de gênero necessário à cultura dos que viveram até esse episódio, que ora tento relatar.
Árvores no canteiro da avenida também representavam o único verde numa via de aproximadamente 2,5km, estação de metrô há 500m do condomínio, assim como viadutos e vias de acesso rápido para as zonas periféricas da Cidade.
Contudo o que eu visualizava estava distante da movimentação cosmopolita que costumava ver no passado, antes da escuridão que se abateu pelos céus do Planeta.
Mas o que me intrigou, de imediato, foi notar que muitas pessoas haviam se acomodado nas calçadas e também tinham adaptado tendas cobertas por papelão e jornal, e apesar de sentir uma sensação de medo e incerteza, venci a barreira do egoísmo e me dirigi a uma dessas habitações provisórias, e ao me aproximar, o cheiro de secreções nauseantes era forte; e, prendendo a respiração perguntei a uma mulher que se encolhia no canto da calçada: _ Por qual motivo de estavam nessas condições, ao que me respondeu:
_ Fomos impedidos de retornar aos nossos lares, residimos em bairro longínquo daqui, e como não há transporte público, tampouco nos deixaram permanecer em nossos locais de trabalho, improvisamos isso, até que tudo volte ao normal.
E surpresa perguntei se sabia o que estava acontecendo, e um tanto confusa ela me disse praticamente sussurrando que o Governo havia decretado Guerra contra Deus.
E sem entender nada, pensei que pudesse se tratar de alguma fanática religiosa e quis compreender qual era sua fonte de informação; e, novamente, aos sussurros disse que era o que se falava por todos que habitavam a calçada da conhecida Avenida da Capital.
Compadecida da senhora que temia até o vento, arriscou convidar-me às pressas para rezar com eles, pois dizia ser a única possibilidade de se acalmar o temível DEUS, pois Ele estava nos castigando por nosso esquecimento e desprezo em relação ao seu AMOR sempre incondicional, e nós sequer lançávamos uma prece amorosa de agradecimento ao Alto.
Tocava-me profundamente as fibras do coração a fé daquela senhora, pois suas roupas aparentemente surradas e sujas, a situação caótica, a improvisação, tudo nos igualava; e, sábia e humilde percebia finalmente que não havia alternativa senão olharmos para o Céu, e JUNTOS pensarmos o que fazer para revertermos a situação.
Será que somente quando a realidade se descortina a nossa frente, de forma cruel e impiedosa, vamos pensar no que poderíamos ter feito para impedir o caos????
Espero que tenham a resposta para essa questão e muitas outras, pois agora, sinto apenas que pouco a pouco a esperança se esvanece, enquanto a escuridão permanece.
E eu pergunto ao Alto: e as luzes da Terra e dos Céus, onde estarão?!!!
Sempre a tivemos em nossas mãos, e o que fizemos? Sabíamos, pois fomos avisados, e mesmo assim decidimos manter nossa CONFORTÁVEL INÉRCIA.
Atônita, eu me pergunto se acaso alguém venha ler esse diário de bordo de uma “quase sobrevivente”, até quando esperaremos os momentos finais agonizantes para empunharmos a luta pela própria vida e a dos nossos semelhantes????
Ei vocês, até quando esperarão?!
Amazona nº.3
(lutando pela sobrevivência)
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